Já dizia o velho verso sobre as lágrimas de Portugal. Mas o verso nem sempre está aí. Por vezes as lágrimas secaram de tanto sal, deram lugar à força. Os grãos viraram uma fortaleza, que assovia com o vento as canções do mar. Um paredão sólido, que se arrepia com o contato das ondas. Elas vão levando o meu sal, para as profundezas oceânicas, para o horizonte inesperado, para o coração de um peixe. Virei suor, virei dor, virei a pulsação. Agora sou um olhar venenoso, sou a crocância de um amor jovem, regado à óleo e salsa. Do pó virei a palavra e do verbo sou um sorriso amarelo. No fim, todos terminamos sem bicarbonato de sódio.
Dia lilás
As explosões iluminam o céu, cobrindo as nuances azuis e vermelhas daquele anoitecer. Observo os reflexos num fio laminado de água, são tantos sorrisos! Por toda a parte os rostos parecem aliviados, todos pulam, dançam nos paralelepípedos. Mas eu volto minha cabeça para o chão. Só consigo pensar em como seria bom se visse tudo isso. Se percebesse o equívoco! Não era apenas um número, sacrificado pela terra. Eu aperto o chapéu com força. Ainda não é o fim e sei que ainda tenho uns dias para viver, para morrer…
Não sei como nem de onde tirei minhas forças. Quanto mais a ferida na perna me paralisava, mas minha cabeça insistia em continuar. De repente, um ângulo vertiginoso perfura minhas costas. Novamente encontro a terra. Dessa vez tudo começa a embotar, até minhas mãos formigarem. Sentia meu corpo tremer, mas não conseguia me movimentar. Rouca, surda, aos poucos também fico cega, enquanto a terra a minha volta se agita.
Escuridão.
Pisca dela
Pisquei. Ele sorri enquanto me observa fixamente. Pisquei. Os olhos dele agora piscam também. Pisquei. Ele desvia o olhar e faz um sorriso fingido. Pisquei. Continuamos a cantar. Pisquei. Ele canta falsamente. Pisquei. Seus olhos sorriem para mim. Pisquei. Nada. Seus olhos agora são silenciosos e os meus envergonhados. Pisquei. A sensação é de que ambos percebemos uma coisa que não conhecíamos. Piscamos. Sorrimos com os nossos olhos. Piscamos. Já nos conhecemos? Piscamos. Estamos sincronizados, mas queremos fugir da situação embaraçosa que nos colocamos. Piscamos. Ele começa a desviar o olhar. Pisquei. Ele agora observa fixamente o chão. Pisquei. A canção está no fim e eu perdi minha concentração. Repisquei. Agora olho fixamente para o nada.
Brincadeira de velho
Encostei hesitante a língua no café fervente do escritório. Uma tragédia para as papilas gustativas, agora queimadas, ardidas e com perda temporária do paladar. Minha cabeça dói, atravesso as muralhas beges e bambas, por onde meus colegas escondem suas vidas secretas.
Vermelho. Merda! O trânsito estava horrível, carros rastejando pelo asfalto e fumaça dificultando minha visão. Por que eu tinha que entregar para o avô da Maria? Que diabos! Ela bem que poderia ir no meu lugar. BIBIBIBIBI ZOOOOOIN ZOOOIN??Ambulâncias, sirenes mil… Ah, meus ouvidos pedem a paz de um velho entediante de qualquer forma!
- Entra, meu filho.
- Boa tarde, senhor, vim trazer a encomenda da Ma..
- Venha cá que quero falar contigo – me puxou bruscamente o velho cegueta.
Me acomodei em um sofá xadrez multicolor. Os cantos desbotavam, sinal de que estavam a mais de 30 anos mofando naquela parede. Minhas pálpebras permaneceram caídas enquanto ele tagarelava sem parar. ZZzz – O que??
- Sim, meu rapaz, ele se fingia de morto!
O tema começou a me intrigar. Mas que bizarrice era essa no meio das asneiras do ancião?
- Tinha 5 filhos, todos bem resolvidos, com seus empregos medíocres, mas aparentemente felizes com um salário médio. No entanto, o homem conhecia o coração de cada um deles e sabia que cedo ou tarde o atirariam num asilo até morrer de demência. O que eles mais queriam, no fundo, era uma boa herança. O que as criaturas não sabiam era que ele previu muito cedo o que aconteceria e tratou de armar um plano.
A primeira coisa que fez foi não escrever testamento algum. Decidiu que só escreveria os nomes quando estivesse à beira da morte. Os filhos acharam aquilo turrice típica da velharada, que teima com coisas tolas simplesmente para chamar a atenção. Aceitaram até a segunda parte do plano começar. O pai, já nos seus 66 anos, começou a sofrer de ataques fulminantes. Tenho que admitir que a dramatização era perfeita e o velho Antenor arrumava sempre uma morte exagerada, mas perfeita nos seus mínimos detalhes. Uma vez era o coração, na fila do banco. Na outra, uma queda terrível nas escadarias o deixava em coma.
- Mas como ele se machucava todo e não morria?
- Outra brilhante ideia do velho: subornava médicos, enfermeiros, até quem dirigia ambulâncias! Chegou a ficar conhecido em todos os hospitais e o pessoal fingia que nada acontecia, não só para os filhos, mas entre si também. Então, era simples, bastava simular os acidentes, os ataques, os contratempos. Antenor criou milhares de artimanhas que enlouqueciam os 5 filhos. Não lembro como, mas ele dava um jeito de envolver cada um nas suas quase-mortes.
Piiii – pi-pi-pi … o aparelho que media os batimentos cardíacos fazia Ângela tremer, enquanto Sérgio sufocava de tensão. Mas não, o médico logo os tirava da sala e dizia que o velho ia viver. “E agora? Se ele morrer assim vamos ter que dividir a herança. Mas se eu for uma filha muito presente, quem sabe ele mude de ideia e coloque logo o meu nome”, pensavam os 5.
Ora a saúde do velho estava frágil, instável, ora ele parecia o idoso mais saudável da vizinhança. Ele se divertia com o jogo, passava noites em claro bolando planos para a próxima morte falsa.
- Aconteceu o que eu imagino?
- Sim, numa dessas, ele morreu. Mas nem foi premeditado. O velho colhia flores no jardim, quando teve um AVC.
- Coitado… E os filhos?
- Entraram em desespero. Para quem ia a herança, afinal? Descobriram anos depois que ele tinha feito sim um testamento e colocou em uma caixa enterrada no jardim. Com a ajuda da polícia, advogados e vizinhos, encontraram pistas codificadas pela casa inteira. “Louco. Gagá!”, exclamava Jorge enquanto o policial cavava próximo às petúnias.
???
- Precisava ver, Eniloráquio, a cara do rapaz quando viu seu nome entre os beneficiados pelo testamento. Era uma boa quantia, justa, alta e que satisfazia todos os irmãos. Choque, vergonha e uma lágrima. Os cinco ficaram em silêncio, lembrando de tudo que já passaram com o velho pai e como era divertida aquela convivência “forçada” pelas artimanhas fatais do velho nos últimos anos.
Não se esqueça, jamais
Nossa respiração é pesada. Os lábios se movem, mas nada sai. Hesitação. As vozes estão roucas e tão incapazes quanto as palavras. Há apenas o silêncio entre nossos olhos, que tentam esconder, sem sucesso, o brilho do adeus.
- Não é a última vez. Só quero que me prometa uma coisa…
- Não, pare com isso!
As palavras atropelaram a respiração. Uma sensação de sufoco, de nó na garganta toma conta da nossa fala, mas era preciso manter a calma. Enquanto os espirítos se contorciam de dor e os corpos ignoravam o vento frio, os olhos permaneciam serenos. Éramos dois atores, envergonhados daquela peça.
- Por que abaixa a cabeça?
Os meus cabelos escondiam meus temores. Eles estavam mais compridos, porém já não eram mais macios. A pólvora e a terra cobriam com uma fina camada os fios arrepiados. Fios da vergonha.
Diante da gélida paisagem, engoli tudo a minha frente e encarei-o:
- Até.
Ele abaixou-se e pegou um punhado de terra com neve:
- Estás vendo? É por essa morte que estamos lutando. É por esse punhado de terra morta, que se desmancha ao vento! É por esse deserto, sem luz, sem grama, sem cheiro. É pelo odor pútrido que ecoa do silêncio das ruínas, pela doença que degrada meus intestinos, é pelas feridas espumantes que agora se calam! Mas não, não vou sozinho. Não é minha vida, é a nossa.
- Não, tu estás errado. É pelos sorrisos, pelas boas lembranças,por tudo que conseguimos juntos. É pela alma de minha família, dos meus companheiros. É para essas faces amigáveis que eu dou meu adeus. À cada passo, nos afastamos mais deles, mas é por eles! Sei que talvez não possamos voltar para reve-los.
- Só me prometa uma coisa…
- Não gosto desse tom… Mas prometo o que tu quiseres!
- Simplesmente não esqueça. Lembre-se para sempre dessa noite estrelada, do cinza dessa parede prestes a ruir, desse sangue escorrendo na minha testa e dessas palavras. Quando o céu estiver escuro, quando o medo te atormentar, lembre-se deste momento. Podes fazer isso?
Fiquei calada. Meu espiríto berrava no vazio. Era o som dos mudos, um zumbido quase hipnótico que chegava aos meus ouvidos, à minha garganta. Eu tremia e ele percebeu a palidez do meu rosto.
- Desculpe – prosseguiu ele
- Por que?
- Pelo adeus.
Continência, olhos voltados novamente para o chão e costas. Um abraço se transforma em uma sombra, num vulto e, em seguida, desmancha no ar como a terra.
Campo de trigo
Eram tempos difíceis aqueles, sem dúvida. Eu mastigava uma palha seca, que arranhava meus dentes à cada mordida. Minha boca apenas salivava. Na ausência de pão, qualquer coisa livrava a boca da secura, da dor da fome. Eu observava o horizonte, enquanto passava aquela palha de um lado para o outro da minha boca. Me perguntava: onde estava minha fé? Agora era mais do que necessário acreditar. Confiar nos sólidos cânticos, nos trajes negros e nos olhos selados pela tranquilidade santificada. Tudo está voltado para os altares, para o céu sagrado, para o dourado que adorna o as estrelas.
Mais do que nunca era da austeridade sacerdótica que eu precisava agora. Precisava da mesma fé dos que cumprem sua penitência, da mesma paciência dos celibatários. Precisava fechar os olhos para o horror e abri-los para o meu próprio eu. Era a hora de meus ouvidos pararem de ouvir e dos meus olhos apenas verem o que eu quero ver.
De uma hora para a outra, aqueles cânticos distantes ecoavam… As notas, que antes me pareciam o som do próprio céu, agora eram uma irônica lembrança. Tudo naquele momento, no entanto, me parecia irônico, assim como o deboche do inimigo na fronteira. Tem coisas que não se esquece e aquela imagem, daquele sorriso desdenhoso, satírico, até hoje me faz espumar de ódio. Ele ria, como em uma sátira grega, como numa daquelas novelas vulgares, como um tolo, um louco!Um bufão, que tudo que vê é motivo de piada e a vitória temporária já é suficiente para uma festa.
De repente, eu via aqueles sacerdotes voltando-se para mim, com seu olhar pesado e seus dedos apontados para meu coração. Eles também começam a rir, assim como o inimigo da fronteira. Suas faces se distorcem até ganharem os contornos do mesmo bufão da fronteira. A minha vergonha se transforma em ódio e, em seguida, numa alucinação profunda. Eu mergulhei no meu sonho, enquanto mascava aquela palhoça. Os cânticos agora se transformam lentamente em violinos e em assobios de pardais. Será que aquela fome era tanta que eu estava enlouquecendo, no meio da lama e do medo? Não! Eu não podia enlouquecer, não agora.
Movimento
A violência é geralmente relacionada à movimentação, ao ato abrupto. Nossa agressividade explode em um momento de fúria, nossas pernas acompanham o frenesi, se desesperam, tropeçam nelas mesmas. São atos impensados, movidos pelo instinto animal de se proteger e de atacar, no entanto são atos.
Mas não eu. Eu sou um demônio estático. Congelado e inerte, assisto ao inferno com a tranquilidade e paciência de um monge tibetano. Meu único movimento é o da auto censura, que violenta minha alma sem mover um dedo.
Minha escrita é telegráfica, não há nada de poético ou de desesperado. Quanto mais escrevo, mais calado fica meu espírito. Ele descansa, depois de tantos esforços dramáticos. Após a explosão, não resta mais nada.
Apenas um suave vazio sacode de um lado para o outro, como o pêndulo de um velho relógio de madeira. O estado é contemplativo e abstrato, como se uma atmosfera azul estivesse tomando o lugar da morte.
De repente, percebo que não estou mais caindo, nem morrendo. Eu já cheguei ao chão, que me abraçou com lama e sangue. Já fui recebida pela terra ácida, apesar da minha surdez aleatória, que me deixou perdida naquele mundo.
Meus sentidos estão confusos, porém relaxados ao mesmo tempo. Mas corvo negro, o que tu olhas enquanto sobrevoa minha cabeça? Mesmo com a lógica embotada, deduzi o que era tudo aquilo: a sensação de perda.
É a queda do movimento.
Cartazes
Por uma ideia. Minha frieza e meu sarcasmo se dissolvem. De súbito, uma energia toma conta do meu corpo. É a coragem, que dissimula o tremor das minhas pernas, o suor gelado e a falta de palavras. Agora já é tarde demais para correr, para voltar. O meu único caminho é o que eu escolhi. E eu grito:
- Vamos, adiante!
O coro canta na minha mente, meus braços fazem o mesmo sinal que os cartazes que apodrecem nos muros caídos. Seguimos, num galope só. Num mesmo impulso, como numa valsa frenética, fluímos feito a corredeira de um rio em em direção ao objetivo. Nossos olhos passam por cima dos nossos mortos, dos deles. Ignoramos o sangue, os corpos, a lama, o fedor e a podridão. Enquanto isso os anos que se passaram agora piscam e repiscam no meu espírito.
Só se vive a imaginação, por alguns minutos. Podíamos figurar em um cartaz. Poderíamos ser o modelo de uma bela pintura do século XIX. Mas não. A terra que explode é tão real quanto a fluidez do sangue que escorre em meu rosto. Por um momento, acordamos do nosso sonho coletivo com um ensurdecedor grito das bombas.
Caí no chão, feito os cartazes dos muros.
Querer
Neva, neuve, nevoeiro. Meus olhos estão espremidos. Os cílios se despedaçam, como se a névoa fosse feita de concreto. A respiração está difícil. O gosto na boca é um amargo com fundo de couro e terra.
No estomâgo, apenas um pequeno vazio. Uma dor aguda sobe até a garganta e devora minha coragem. As pernas mal se sustentam, tremem,desabam. As coxas ardem, nuas e queimadas.
Sou um punhado de farrapos, no frio que me consome.
As imagens chegam como os vagões de um trem. Arrastam memórias e seguem seu caminho nos trilhos da vida. E num piscar de olhos, estou cavalgando nas estepes, de peito estufado, olhar no horizonte. O vento seco e arenoso me guia pelo infinito verde. Mas sei que o inimigo está próximo. Olho para o meu amor e ele distraidamente continua sua cavalgada. Sorri. É um espiríto livre. Mas eu sabia que isso iria acabar em breve.
Nossas vidas foram separadas por um abismo rochoso. O meu grito está engasgado, mas tremula no espaço como uma onda que perturba o além. Um impulso sufocante me enrola, me degenera, me purifica.
Agora meu fuzil aponta para as bandeiras. Meu olhar congelou o mundo à minha volta e apenas o vermelho incendeia minhas pupilas saltadas. As explosões confudem e disparam meu coração. É preciso correr, mas se morre aos poucos. As pernas voltam a tremer, os músculos se contraem. Quero desistir, mas é preciso proteger. É preciso por aquele sorriso.
Linguajar abstrato
Oxford, 1965, 17 minutos antes de um colapso nervoso.
Naquele dia, o substantivo do sujeito estava subjulgado.Pelo meu subconsiciente, aquela substância só poderia ser subjetiva.
Talvez meu adjetivo não fosse o ideal.Seria melhor usar um adjunto do advertising.Adquiri muitas técnicas com essa admiração.
Depois dos Beatles, perdi meu beat, beatificou-se o beato e só agora aprendi:
Que tudo que eu preciso é de amor.
Eniloráquio Prata, em uma dia de divagação linguística.

