Lacrado, plastificado, encerrado, protegido, guardado nas profundezas. Se um dia foi teu, se um dia foi nosso, agora é só meu. Não me importo com o que vier pela frente. O resto é tempo, sobretudo, tempo. Só irei transcorrer pela vida como um saco de farinha na esteira do supermercado. Sei que lá no fundo existe algo bonito, algo que emociona, que é brega, cafona, mas real. Esse algo me é bastante útil, quando a vida parece áspera demais, quando os corpos parecem grosseiros demais, quando tudo está milimetricamente fora do compasso.
É nesse momento, em particular, que ergo minha cabeça e enfrento meu corpo. Somos dois em um, agora. Tu és só uma ameba ambulante, que respira, come e dorme. Eu, não. Sou um vermezinho que se esconde nas cavernas e lacrimeja quando vê aquela coisa bonita ali. É uma arte viva e ao mesmo tempo morta do lado de fora.
Se transito, não será de cabeça baixa. Será até o último suspiro!!! Sei que sairei ferida das batalhas, mas aquela coisa bonita permanece intocável. Talvez essa seja sua real beleza. É o que me encanta, me faz sentir algo estranho no esofâgo. É como engolir ar, ou sei lá. Feche os olhos e tenha visões alucinantes de linhas tortuosas piscando. Coma chocolate derretendo na língua. Tenha mil metáforas e nenhuma. É o paradoxo em si. E como é belo!
Não canso de admirar.
Às vezes tentam tirar essa coisa bonita de mim. És tu, me desobedecendo, sendo levado pelo nada, pelas línguas tortas, pela solidão. Mas saiba, tu, que já não me importo. Pode tentar, que não vais conseguir. Nunca serei uma mendiga de terno, que implora por uma alma nas reuniões corporativas.
Estou viva! Estou viva!
E cada pincelada de lembrança, mesmo que seja pura imaginação, já me dá essa certeza. Não sou vazia como tu. Eu ainda me arrepio na madrugada. Mesmo tu, com toda essa maquiagem sem vergonha não consegue esconder meu olhar cheio de brilho. Fito-te e vejo um espelho opaco, uma asfixia silenciosa. Me chame de platônica, boba, quem disse que ligo? Implore por uma novidade eu provo que isso não existe. O que me ofereces não seduz. Não há mágica quando se conhece o truque. Mas digo que consegui olhar através das cortinas… E vi uma galáxia, ondas, um forte impulso que nunca morre.´
É, corpo,tu me perdeste, talvez para sempre. Tenho fome de vida.Mudei de dimensão. Quem sabe um dia a gente se encontre na esquina. Por hora, ficarei aqui, admirando embasbacada a beleza daquela coisa ali.

