Linguajar abstrato

Oxford, 1965, 17 minutos antes de um colapso nervoso.

Naquele dia, o substantivo do sujeito estava subjulgado.Pelo meu subconsiciente, aquela substância só poderia ser subjetiva.

Talvez meu adjetivo não fosse o ideal.Seria melhor usar um adjunto do advertising.Adquiri muitas técnicas com essa admiração.

Depois dos Beatles, perdi meu beat, beatificou-se o beato e só agora aprendi:

Que tudo que eu preciso é de amor.

Eniloráquio Prata, em uma dia de divagação linguística.

Aqueles negros olhos…

Era o dia 21 de Setembro de 1932, quando Ingo a viu pela primeira vez.Nós dois erámos grandes amigos desde a infância e decidimos sair para comemorar o aniversário dele.Fomos para uma boate no centro de Munique, onde geralmente tocavam músicas americanas e bandas no estilo “swing”.A idéia era dançar,beber e rir ao som de “Glenn Miller”.

Ingo era uma pessoa extremamente fria e analítica, desde o dia em que o conheci.Falava pouco e era bastante tímido.Em todas as festas, sempre lançava um olhar de indiferença sobre todos, o que, naturalmente, afastava as moças.

Apesar disso, o seu comportamento mudou drasticamente depois que confrontou aqueles olhos.Negros e profundos, conseguiram despertar uma intensa paixão no, antes frio, coração de Ingo.Era uma jovem moça, alegre e espontânea, destacava-se na festa por ser cheia de vida.Possuía, claramente, um sotaque diferente, talvez polonês ou russo.Os dois dançaram a noite toda e o amor dele parecia ser correspondido.

Tempos depois, em meados de 1935, a Alemanha ardia em ódio e fúria.Os dois haviam trocado cartas desde aquela noite, mas nunca mais haviam se visto.A moça, que se chamava Hannah, teve que se mudar para Frankfurt.Mesmo assim, Ingo esforçava-se para manter sempre contato com a sua amada.Até que em um certo dia, as cartas pararam.Ela não respondia, deixando Ingo inconsolável.

Os anos passaram-se e a guerra explodiu na Europa.Nos alistamos em 1940 e pretendíamos entrar na “Luftwaffe”.Para a nossa tristeza, graças à nossa miopia, não fomos aprovados e nos enviaram para o interior, um lugar que chamavam de “campos de concentração”, nas proximidades de Varsóvia.Descobrimos o horror do extermínio em massa de judeus, ciganos, doentes e comunistas.

No meio do frio e morte, Ingo reencontrou Hannah.Ela era uma judia-polonesa e as cartas haviam parado justamente pela perseguição da sua família.Infelizmente, nada ele podia fazer.Caso alguém descobrisse o seu amor, ambos seriam torturados e mortos.Ele fez o que podia para manter aquela frágil moça viva.

Suas tentativas foram em vão.As péssimas condições dos campos ceifaram a vida da jovem.Hoje, depois de tantos anos, ainda o vejo, contemplando as estrelas, procurando o mesmo brilho daqueles saudosos negros olhos.



De Tallin,com amor…

Tallin, 24 de Dezembro de 1886

Prezado Eniloráquio,

recebi suas cartas carinhosamente.Suas palavras são doces e meu coração espera por cada carta sua.Não posso revelar meu real endereço, porque simplesmente não o tenho.Sou uma andarilha, para onde meu circo chama, eu vou.

Hoje chegamos em uma bela cidade, Tallin.E que bela cidade!Repleta de casinhas coloridas no estilo medieval.Respiramos um ar lilás nos sorrisos que se acumulam.A magia de Tallin contaminou Gaspatim, nosso mal-humorado mágico.A alegria dos palhaços nunca foi tão natural.Já estivemos em muitas vilas tristes e secas, levando a alegria e fantasia do circo.Mas nunca esse fenômeno foi o contrário.Pela primeira vez, nós somos levamos pelo clima do local.

Envio anexo à carta uma fotografia que tirei da cidade, espero que goste.Estou escrevendo enquanto observo a noite estrelada.O “show ” irá começar daqui alguns minutos.Já coloquei minha fantasia e estou pronta para os trapézios.Espero que continuemos a trocar impressões do mundo que nos rodeia.Sabes que sou viciada em escrever cartas e é a primeira vez que o remetente responde.

Com carinho,

Artista Circense

Não é linda, Eniloráquio?

Não é linda, Eniloráquio?

Endereço: Rua Cinza, 3456.Alameda dos Corações Esquecidos.

Casa nº 67

De: Artista Circense

Para: Eniloráquio Prata

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Cartas de Natal

Belém, 22 de Dezembro de 2008

Caro amigo,

gostaria de expressar meus desejos de paz e amor neste final de ano.Não sei se é a idade, mas a cada Natal que passa, sinto que as coisas vão se perdendo.Você tem notado isso?Como sempre, eu ofereço minhas humildes palavras de presente.Acredito que o mais importante nesse período são nossos sinceros desejos.Não o tamanho do pacote.

Observo meus filhos pequenos nessa época: querem o brinquedo mais moderno, quanto maior o embrulho, maior o sorriso.Os olhinhos brilham ao assistirem às mirabolantes propagandas.Não os culpo.Toda criança ocidental cristão espera um brinquedo no Natal.Como seus filhos não deve ser diferente.Sinto pena daquelas, meu caro, que o Papai noel “esqueceu”.As mesmas que a sociedade esqueceu nas ruas, embaixo das pontes, nos sinais.

Por falar em Papai Noel, notou que ele virou um dos maiores símbolos natalinos?Junto com o pinheiro e os sinos, o “bom velhinho” figura entre as mais populares representações da festa.O “aniversariante” foi esquecido entre as compras e promoções.Jesus é o nome menos citado, por ironia da situação, no seu próprio aniversário.O que acha disso, meu amigo?

Por trás de um inocente “slogam”, de uma campanha para vender perus congelados ou uma bebida de cola, o capitalismo celebra seu triunfo.Mais uma data que perdeu seus valores.Chegamos a esse ponto, meu amigo, de perder dias.E justamente esse dia, que deveria ser a grande oportunidade. para os homens fazerem o bem.Ninguém mais reflete sobre suas ações.Só vejo reflexões nos espelhos das lojas, onde todos querem estar bonitos para o Natal e Ano novo.Como se a beleza estivesse em etiquetas, não no coração.

Apesar da situação, não fique aflito.Sei que ainda pessoas como eu e você, que se divertem trocando cartas, lembranças e palavras de fé, existem por aí.Sei que nossa alegria e esperança irão contagiar a todos.Espero que você tenha uma ótima festa: cheia de amigos, família, abraços e fartura.

Sinceramente,

Seu velho amigo, Eniloráquio Prata

A Rosa

  Jamais pensei que meu amigo fosse capaz de tamanha habilidade.Ele sempre me pareceu uma pessoa tranqüila, incapaz de fazer mal a quem quer que fosse.De repente, vejo seu nome estampado nos jornais.O que dizem dele, eu jamais imaginaria.Tenho pena é da esposa.A coitada não merecia isso.

  Ainda me lembro, meses antes, quando recebi aquele telefonema:

 -Alô?Joan?Podemos conversar?Estou com uns problemas…- disse Nick, com a voz trêmula..

 - Diga, o que houve?

 - É a Ana, tenho achado ela estranha…

 - Estranha, como?

 - Acho que quer me matar.Não nos falamos normalmente, ela tem conversado muito com a vizinha e tem uma caixa….

- Caixa?- perguntei curiosa.

-É, ela acha que eu não percebi…Há uma caixa no armário dela.Está trancado, ela não me deixa abrir.

    Nesse momento comecei a achar que aquela conversa não era brincadeira.Nick estava com a voz nervosa, o que era raro.E Ana?O que gerou aquele comportamento bizarro?Nick era um bom marido e o casamento deles já durava quinze anos.Por que Ana teria a idéia de mata-lo?Essas perguntas pertubavam minha mente.Enquanto isso, o tempo passava, e eu não recebia notícias.

   As novidades vieram estampadas de sangue nos jornais: meu grande amigo matou a esposa violentamente.O brutal assassinato parecia ter ligação com aquela estranha conversa.Teria sido legítima defesa?Ana enlouqueceu ou estava ambionando a herança do marido?Eu não suportava mais a curiosidade, estava tão envolvida no caso que meu interesse começou a virar obsessão.

   Eu estava decidida: iria resolver o mistério.Meses depois, entrei na casa, estava abandonada e empoeirada.Intacto, no canto do quarto do casal, havia o armário que Nick mencionara, e lá dentro havia uma rosa murcha com um pequeno bilhete de Ana:

Querido, feliz aniversário de casamento.Glória, nossa vizinha, descobriu onde vendem rosas iguais do nosso primeiro encontro!

Te amo!

Ana.”

Carta às pedras

No céu, qualquer segundo,

Caras amigas pedras,

  Lembranças aos diamantes, duros e brilhantes.Dêem um alô na pequena rocha, cinza e insignificante, mas que se estiver no caminho, ah, derruba qualquer gigante.Digam aos medíocres grãos de areia que eles fazem as mais belas praias.Ao rubi, que sua cor sedutora não o faz a mais nobre das jóias.À grande rocha das encostas, que destrói embarcações desavisadas, mas constrói castelos, saiba o poder que tem , minha cara.No mais, lembrem o ouro que nem tudo que reluz é…

Artista Circense

Fumacê

    Andar, andar, andar…

    Respirar fundo aquela fumaça densa

    Preta, Cinza, extensa

    Saborear rostos amargos

   Sacudir o relógio, são quase nove.

  Um acidente!Nem quero ver os estragos

 Um fumacê denso numa manhã me envolve.

(Eniloráquio Prata)

Dependências

   

    Só digo que preciso:

    De uma lente, de um vaso, de botões,do acaso, de um relógio

    De uma nota,de uma palavra,de um travesseiro, de um salário, de um currículo, de um horário

    De um amigo,de uma escova, de um umbigo, de uma coisa.

    De alguém, de um maço, de ninguém, de um abraço.

   De uma cadeira, de um colchão, de um sim e uma profissão.

    De um elevador, de um café, de um pé, de um amor.

    De uma novela, de um pescador, de uma fivela, de um jogador.

    De um dado, de um prego, de um condenado, de um emprego.

    De uma chave, de uma tela, de um tempo, de um senhor.

    De uma ideologia, de uma semente, da cartomante, da minha gente.

    De um cruxifixo, de um casamento, de dois filhos e um documento.

    Eniloráquio Prata

Carta a Ninguém

Sol eqüidistante, cinco por cento ali.

Caro senhor Ninguém,

   Você deixou eu passar o sinal.Você deixou eu atravessar a rua.Você foi honesto, nunca mentiu.Você prestou atenção em minhas palavras.Você amou, você sorriu.Você esqueceu de ir trabalhar.Você olhou o pôr-do-sol.Foi diferente do olhar alheio, foi corajoso, cuidadoso, sensível , agradável.

  Sonhou com um mundo ideal, sentiu a fome dos miseráveis, apiedou-se com os desamparados, enfatizou as importânciais, lembrou de aniversários, refez amizades, engoliu orgulho, lembrou dos amores, esqueceu as contas. Deu presentes de Natal(sem querer outro em troca), plantou uma árvore, sorriu nas Segundas-feiras, rezou por melhores dias, leu com felicidade e subiu escadas com euforia.

  Eu sei que você soltou balões ao vento, fez cartas de amor, ajudou o cego a atravessar a rua, pulou os paralelepípdos das calçadas, pediu licença, deu gargalhadas, contou estórias, dançou, regou os jardins, desligou a tv, atendeu o telefone, trocou a água do aquário, vestiu as meias ao contrário, brincou de teatro, estourou bolhas de sabão, esqueceu do tempo, deitou para pensar.É Ninguém, você já fez de tudo, amou como nunca e viveu intensamente.

Grata pela atenção,

Artista Circense

Querido sentimento velado.

Parte um   

Crua, torta, encolhida.

Derrotada,morta,encrustecida.

Não tem mais Carol.

Não tem mais eu.

Não tem mais você.

Não tem mais não.

Uma tempestade, violenta, áspera.

Que destrói com seus ventos ferozes

Vais perdendo seu poder, conforme seu caminho passa.

Seu tempo passa, sua vida passa,alguém passa,ninguém viu.

Parte Dois

O escudo rachou.

A trincheira foi fechada.

Querido sentimento velado,acabou.

Que levantem as honrosas bandeiras

da derrota.

Agora saia pela porta.

(…)

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