Não se esqueça, jamais

Nossa respiração é pesada. Os lábios se movem, mas nada sai. Hesitação. As vozes estão roucas e tão incapazes quanto as palavras.  Há apenas o silêncio entre nossos olhos, que tentam esconder, sem sucesso, o brilho do adeus.

- Não é a última vez. Só quero que me prometa uma coisa…

- Não, pare com isso!

As palavras atropelaram a respiração. Uma sensação de sufoco, de nó na garganta toma conta da nossa fala, mas era preciso manter a calma. Enquanto os espirítos se contorciam de dor e os corpos ignoravam o vento frio, os olhos permaneciam serenos. Éramos dois atores, envergonhados daquela peça.

- Por que abaixa a cabeça?

Os meus cabelos escondiam meus temores. Eles estavam mais compridos, porém já não eram mais macios. A pólvora e a terra cobriam com uma fina camada os fios arrepiados. Fios da vergonha.

Diante da gélida paisagem, engoli tudo a minha frente e encarei-o:

- Até.

Ele abaixou-se e pegou um punhado de terra com neve:

- Estás vendo? É por essa morte que estamos lutando. É por esse punhado de terra morta, que se desmancha ao vento! É por esse deserto, sem luz, sem grama, sem cheiro. É pelo odor pútrido que ecoa do silêncio das ruínas, pela doença que degrada meus intestinos, é pelas feridas espumantes que agora se calam! Mas não, não vou sozinho. Não é minha vida, é a nossa.

- Não, tu estás errado. É pelos sorrisos, pelas boas lembranças,por tudo que conseguimos juntos. É pela alma de minha família, dos meus companheiros. É para essas faces amigáveis que eu dou meu adeus. À cada passo, nos afastamos mais deles, mas é por eles! Sei que talvez não possamos voltar para reve-los.

- Só me prometa uma coisa…

- Não gosto desse tom… Mas prometo o que tu quiseres!

- Simplesmente não esqueça. Lembre-se para sempre dessa noite estrelada, do cinza dessa parede prestes a ruir, desse sangue escorrendo na minha testa e dessas palavras. Quando o céu estiver escuro, quando o medo te atormentar, lembre-se deste momento. Podes fazer isso?

Fiquei calada. Meu espiríto berrava no vazio. Era o som dos mudos, um zumbido quase hipnótico que chegava aos meus ouvidos, à minha garganta. Eu tremia e ele percebeu a palidez do meu rosto.

- Desculpe – prosseguiu ele

- Por que?

- Pelo adeus.

Continência, olhos voltados novamente para o chão e costas. Um abraço se transforma em uma sombra, num vulto e, em seguida, desmancha no ar como a terra.

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