Brincadeira de velho

Encostei hesitante a língua no café fervente do escritório. Uma tragédia para as papilas gustativas, agora queimadas, ardidas e com perda temporária do paladar. Minha cabeça dói, atravesso as muralhas beges e bambas, por onde meus colegas escondem suas vidas secretas.

Vermelho. Merda! O trânsito estava horrível, carros rastejando pelo asfalto e fumaça dificultando minha visão. Por que eu tinha que entregar para o avô da Maria? Que diabos! Ela bem que poderia ir no meu lugar. BIBIBIBIBI ZOOOOOIN ZOOOIN??Ambulâncias, sirenes mil… Ah, meus ouvidos pedem a paz de um velho entediante de qualquer forma!

- Entra, meu filho.

- Boa tarde, senhor, vim trazer a encomenda da Ma..

- Venha cá que quero falar contigo – me puxou bruscamente o velho cegueta.

Me acomodei em um sofá xadrez multicolor. Os cantos desbotavam, sinal de que estavam a mais de 30 anos mofando naquela parede. Minhas pálpebras permaneceram caídas enquanto ele tagarelava sem parar. ZZzz – O que??

- Sim, meu rapaz, ele se fingia de morto!

O tema começou a me intrigar. Mas que bizarrice era essa no meio das asneiras do ancião?

- Tinha 5 filhos, todos bem resolvidos, com seus empregos medíocres, mas aparentemente felizes com um salário médio. No entanto, o homem conhecia o coração de cada um deles e sabia que cedo ou tarde o atirariam num asilo até morrer de demência. O que eles mais queriam, no fundo, era uma boa herança. O que as criaturas não sabiam era que ele previu muito cedo o que aconteceria e tratou de armar um plano.

A primeira coisa que fez foi não escrever testamento algum. Decidiu que só escreveria os nomes quando estivesse à beira da morte. Os filhos acharam aquilo turrice típica da velharada, que teima com coisas tolas simplesmente para chamar a atenção. Aceitaram até a segunda parte do plano começar. O pai, já nos seus 66 anos, começou a sofrer de ataques fulminantes. Tenho que admitir que a dramatização era perfeita e o velho Antenor arrumava sempre uma morte exagerada, mas perfeita nos seus mínimos detalhes. Uma vez era o coração, na fila do banco. Na outra, uma queda terrível nas escadarias o deixava em coma.

- Mas como ele se machucava todo e não morria?

- Outra brilhante ideia do velho: subornava médicos, enfermeiros, até quem dirigia ambulâncias! Chegou a ficar conhecido em todos os hospitais e o pessoal fingia que nada acontecia, não só para os filhos, mas entre si também. Então, era simples, bastava simular os acidentes, os ataques, os contratempos.  Antenor criou milhares de artimanhas que enlouqueciam os 5 filhos. Não lembro como, mas ele dava um jeito de envolver cada um nas suas quase-mortes.

Piiii – pi-pi-pi … o aparelho que media os batimentos cardíacos fazia Ângela tremer, enquanto Sérgio sufocava de tensão. Mas não, o médico logo os tirava da sala e dizia que o velho ia viver. “E agora? Se ele morrer assim vamos ter que dividir a herança. Mas se eu for uma filha muito presente, quem sabe ele mude de ideia e coloque logo o meu nome”, pensavam os 5.

Ora a saúde do velho estava frágil, instável, ora ele parecia o idoso mais saudável da vizinhança. Ele se divertia com o jogo, passava noites em claro bolando planos para a próxima morte falsa.

- Aconteceu o que eu imagino?

- Sim, numa dessas, ele morreu. Mas nem foi premeditado. O velho colhia flores no jardim, quando teve um AVC.

- Coitado… E os filhos?

- Entraram em desespero. Para quem ia a herança, afinal? Descobriram anos depois que ele tinha feito sim um testamento e colocou em uma caixa enterrada no jardim. Com a ajuda da polícia, advogados e vizinhos, encontraram pistas codificadas pela casa inteira. “Louco. Gagá!”, exclamava Jorge enquanto o policial cavava próximo às petúnias.

???

- Precisava ver, Eniloráquio, a cara do rapaz quando viu seu nome entre os beneficiados pelo testamento. Era uma boa quantia, justa, alta e que satisfazia todos os irmãos. Choque, vergonha e uma lágrima. Os cinco ficaram em silêncio, lembrando de tudo que já passaram com o velho pai e como era divertida aquela convivência “forçada” pelas artimanhas fatais do velho nos últimos anos.

 

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