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Aqueles negros olhos…

Era o dia 21 de Setembro de 1932, quando Ingo a viu pela primeira vez.Nós dois erámos grandes amigos desde a infância e decidimos sair para comemorar o aniversário dele.Fomos para uma boate no centro de Munique, onde geralmente tocavam músicas americanas e bandas no estilo “swing”.A idéia era dançar,beber e rir ao som de “Glenn Miller”.

Ingo era uma pessoa extremamente fria e analítica, desde o dia em que o conheci.Falava pouco e era bastante tímido.Em todas as festas, sempre lançava um olhar de indiferença sobre todos, o que, naturalmente, afastava as moças.

Apesar disso, o seu comportamento mudou drasticamente depois que confrontou aqueles olhos.Negros e profundos, conseguiram despertar uma intensa paixão no, antes frio, coração de Ingo.Era uma jovem moça, alegre e espontânea, destacava-se na festa por ser cheia de vida.Possuía, claramente, um sotaque diferente, talvez polonês ou russo.Os dois dançaram a noite toda e o amor dele parecia ser correspondido.

Tempos depois, em meados de 1935, a Alemanha ardia em ódio e fúria.Os dois haviam trocado cartas desde aquela noite, mas nunca mais haviam se visto.A moça, que se chamava Hannah, teve que se mudar para Frankfurt.Mesmo assim, Ingo esforçava-se para manter sempre contato com a sua amada.Até que em um certo dia, as cartas pararam.Ela não respondia, deixando Ingo inconsolável.

Os anos passaram-se e a guerra explodiu na Europa.Nos alistamos em 1940 e pretendíamos entrar na “Luftwaffe”.Para a nossa tristeza, graças à nossa miopia, não fomos aprovados e nos enviaram para o interior, um lugar que chamavam de “campos de concentração”, nas proximidades de Varsóvia.Descobrimos o horror do extermínio em massa de judeus, ciganos, doentes e comunistas.

No meio do frio e morte, Ingo reencontrou Hannah.Ela era uma judia-polonesa e as cartas haviam parado justamente pela perseguição da sua família.Infelizmente, nada ele podia fazer.Caso alguém descobrisse o seu amor, ambos seriam torturados e mortos.Ele fez o que podia para manter aquela frágil moça viva.

Suas tentativas foram em vão.As péssimas condições dos campos ceifaram a vida da jovem.Hoje, depois de tantos anos, ainda o vejo, contemplando as estrelas, procurando o mesmo brilho daqueles saudosos negros olhos.



A Rosa

  Jamais pensei que meu amigo fosse capaz de tamanha habilidade.Ele sempre me pareceu uma pessoa tranqüila, incapaz de fazer mal a quem quer que fosse.De repente, vejo seu nome estampado nos jornais.O que dizem dele, eu jamais imaginaria.Tenho pena é da esposa.A coitada não merecia isso.

  Ainda me lembro, meses antes, quando recebi aquele telefonema:

 -Alô?Joan?Podemos conversar?Estou com uns problemas…- disse Nick, com a voz trêmula..

 - Diga, o que houve?

 - É a Ana, tenho achado ela estranha…

 - Estranha, como?

 - Acho que quer me matar.Não nos falamos normalmente, ela tem conversado muito com a vizinha e tem uma caixa….

- Caixa?- perguntei curiosa.

-É, ela acha que eu não percebi…Há uma caixa no armário dela.Está trancado, ela não me deixa abrir.

    Nesse momento comecei a achar que aquela conversa não era brincadeira.Nick estava com a voz nervosa, o que era raro.E Ana?O que gerou aquele comportamento bizarro?Nick era um bom marido e o casamento deles já durava quinze anos.Por que Ana teria a idéia de mata-lo?Essas perguntas pertubavam minha mente.Enquanto isso, o tempo passava, e eu não recebia notícias.

   As novidades vieram estampadas de sangue nos jornais: meu grande amigo matou a esposa violentamente.O brutal assassinato parecia ter ligação com aquela estranha conversa.Teria sido legítima defesa?Ana enlouqueceu ou estava ambionando a herança do marido?Eu não suportava mais a curiosidade, estava tão envolvida no caso que meu interesse começou a virar obsessão.

   Eu estava decidida: iria resolver o mistério.Meses depois, entrei na casa, estava abandonada e empoeirada.Intacto, no canto do quarto do casal, havia o armário que Nick mencionara, e lá dentro havia uma rosa murcha com um pequeno bilhete de Ana:

Querido, feliz aniversário de casamento.Glória, nossa vizinha, descobriu onde vendem rosas iguais do nosso primeiro encontro!

Te amo!

Ana.”

Sangue enferrujado III

 

   O animal desengonçado seguiu a jovem a ponto de irrita-la.

- Que queres, bicho idiota?

A galinha parou, cacarejou agudamente e botou um enorme ovo dourado

     – Deus!O que é isso?Uma galinha mágica?

Mal tirou os olhos do bicho que ele desapareceu, a moça então pegou o ovo, sacudiu-o e analisou-o sem tirar qualquer conclusão.

      -Mas de onde será que isso veio?Para que serve?

 Observou,então, que havia um pó rosado ao lado do local aonde a galinha pôs o ovo.O vento bateu forte e o pó foi nos olhos delicados da jovem, ela coçou-os até verterem algumas lágrimas, que caíram no ovo.Nesse momento, ele começou a brilhar intensamente até virar um pergaminho.Lalita, curiosíssima à essa altura, pegou o papel envelhecido e leu-o:

 

“Nesses versos singelos irei trovar.

À jovem donzela das rosas

Um enigma para me encontrar

Pule o muro, enfrente as fossas

Cheire o que não tem cheiro

Fale com o mudo, evite as lojas

Evite a mentira, também o dinheiro

Assim me acharás,Menina das Rosa “

 

Ao terminar de ler, o papel desfez-se como poeira no vento.A menina ficou surpresa com o ilogismo dos fatos.Quem deixara aquilo, seria o seu amado? 

Tarde tranquila.

  

   Foi aparentemente uma tarde tranquila.Deitei escutando a agonia de Borodin no seu Noturno em ré maior para duas cordas.Aquela música pertubada e triste me pareceu tão serena.Parece uma busca incessante por paz.A mesma paz,tranquilidade dessa tarde.E essa busca toma forma nas últimas notas da música…

   O pôr-do-sol diário, meu filme favorito, escolheu minha casa para molhar seus pincéis reluzentes.Invariáveis tons de rosa, amarelo,laranja inundaram meu quarto,então minha alma aquietou-se.Um brilho de reflexão brusca, uma necessidade de filosofar, conectar-se.Entrar em comunicação profunda não só comigo, mas com Algo além.O céu,inspiração maior, me chamava, havia algo de mais naquele céu,para muitos não.Não era o céu, era uma pintura, era uma obra.Parafraseando a frase do filme Uma mente brilhante,”Ele deve ser pintor”.

   Era assim.Uma tarde tranquila, quieta, pacata, com os carros tocando sua sinfonia desordenada,assim como Borodin e minha alma.

Sangue enferrujado.Parte2.

   -Precisa de ar,menina!Vive encarcerada na sua própria casa!Vá sair!-Exclamou ama.

 - E de que adianta sair de uma prisão para a outra?Lá fora encararei os densos muros do castelo.

     – E vai deixar simples tijolos empilhados destruírem tua felicidade?

     – Não é só esse muro que me tortura,querida ama.Não entendes os muros dentro da mente de meu próprio pai?Ele não vê nada além das conquistas.Para que teve essa filha então?Para vê-la costurando toda vez que retorna de um litígio sangrento?Para limpar as feridas, faze-lo esquecer dos olhares apavorados, dos gritos ensangüentados?É para isso que eu sirvo?

          -Deixe de ser ingrata.Graças a essas batalhas,tu tens o pão de hoje, teus lindos tecidos,ouro no berço,calor no inverno.Menina mal agradecida, deveria ir mais à Igreja agradecer pela tua Fortuna.

          -Será que só sabes ver felicidade no ouro?Ama tola!Nunca conheceu o amor.Agora saia daqui, sua presença está me perturbando.Eu vou sair do castelo, mas porque essa discussão me deixou tensa.

          Lalita vagou solitária por entre os jardins artificiais do feudo.Era tudo tão perfeito, e qualquer servo daria tudo para ter aquela vida rica e colorida.Mas a moça não via cor na sua solidão.O mundo lá fora parecia ser uma maravilhosa aventura que a jovem perdia a cada segundo que passava no castelo.

          A monotonia é quebrada pelos passos desastrados de Ludovico.O gordo servo chega berrando ofegante:

          -Senhorita Lalita, deixaram esta galinha aqui.É para a Senhorita!

         -Oh!Mas quem me mandaria uma galinha?Que inusitado absurdo!Deve ser de algum reino vizinho…

Lalita pôs a ave no chão e continuou o passeio.Para sua surpresa, o bicho começou a segui-la…

(Caroline Soares, 2008 )

Sangue Enferrujado.Parte 1

Ama entrou e reparou na face apática de Lalita.Ela fitava o restos carbonizados na lareira.Não demonstrava nenhuma reação aos gritos de ama.De repente, como um sopro de vida, uma voz baixinha vinda de fora, despertou a menina daquela morte espiritual:

-Menina das rosas!Meninas das Rosas…

Lalita saiu do seu estado inerte para uma euforia absurda.Correu para a janela: nada além da velha vista da torre.

-Ah-suspirou-Nada além das árvores baixas, desse verde jardim, nem uma gota de esperança.Será que estou ficando louca?Oh,destino,por que fazes isso comigo?Brincas com minha alma como uma criança travessa sacode o chocalho.Será que a vida tem que ser tão dura assim comigo?Meu sofrimento não é de fome,não é de frio.É muito pior.Vem lá de dentro,corrói meu espiríto,desmancha as esperanças.E nem o nome dele eu sei…

(Caroline,2008 )