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Dependências

   

    Só digo que preciso:

    De uma lente, de um vaso, de botões,do acaso, de um relógio

    De uma nota,de uma palavra,de um travesseiro, de um salário, de um currículo, de um horário

    De um amigo,de uma escova, de um umbigo, de uma coisa.

    De alguém, de um maço, de ninguém, de um abraço.

   De uma cadeira, de um colchão, de um sim e uma profissão.

    De um elevador, de um café, de um pé, de um amor.

    De uma novela, de um pescador, de uma fivela, de um jogador.

    De um dado, de um prego, de um condenado, de um emprego.

    De uma chave, de uma tela, de um tempo, de um senhor.

    De uma ideologia, de uma semente, da cartomante, da minha gente.

    De um cruxifixo, de um casamento, de dois filhos e um documento.

    Eniloráquio Prata

Carta ao Amor perfeito

Meia-lua, 30 horas de cá.

Caro Senhor Amor,

   Eu esperava encontra-lo na face jovial, nas liras ou nas juras.Tua irmã gêmea, rouba a tua cena e finge ser tua pessoa.Ela veste-te, ilude e entristece.Ó, mas tua irmã Paixão que me perdoe, mas quantos corações ela já não enganou?E por acaso não foi o meu, o teu ou o nosso?Quantos crepúsculos ela nos fez contemplar, quantas noites em claro ela nos fez passar?Não encontro mais o teu endereço, então coloquei na carta apenas o remetente.Fugiste do meu coração e de tantos outros com tanta pressa…Ou será que nunca lá estiveste?

     Eu te pergunto: és mesmo meu amigo?Pareces ora tão presente ora tão sumido.Não és pontual, não és leal.Pareces daquelas amizades oceânicas, que vão e vem conforme a maré, um dia serão teus fiéis parceiros, no outro, uma breve lembrança.

     Amor perfeito, sinto raiva de ti.Não me escolheste, recusaste-me friamente.Será que devo procurar-te na Humildade, ou quem sabe na Sabedoria?Devo parar de te julgar, e simplesmente me aventurar na tua busca?Seja qual for o caminho, só te peço um favor: não me deixe.

Grata pela atenção,

Artista circense.

Amorzinhozinhozinhozinhinho.

 

Quero um amor brincalhão

Com gosto de chiclete

Quero um amor de sorrisos

De tolices, de gritos,liberdade!

 

Quero um amor divertido

Totalmente especulado

Espontâneo,desencanado!

 

Quero um amor detalhista

Que veja o minuto

A saudade

Um amor que participe

Sem vergonha,sem entrelinha!

 

Quero um amor de menina

Para deitar na grama e contar estrelas.

Para fingir que momentos são eternos

De juramentos,de Romeu e Julieta

De gargalhadas, de lágrimas.

 

Quero um amor vivo

Colorido, flutuante, relaxante

Compreensivo

Quero um amor amigo

De cinema, de pipoca

De sonhos,de verdade

 

Quero um amor lembrado

Sem luxo, sem vaidade

Amor suave

Amor de sorvete de creme

 

Quero amar

Sentir que não existe mais chão.

Que eu vôo num balão

Que a vida pouco importa

Sem um amor docinho

Como uma rosa torta

Recebendo o brilho do dia

 

Quem disse que os amores têm que ser azedos?

Quem disse que os amores têm que ser fedidos?

Quem disse que os amores têm que ser feridos?

Quem disse que os amores têm que ser avessos?

Quem disse que os amores têm que ser geléia?

Quem disse que os amores têm que ser de pedra?

Quem disse que os amores têm que ser idéia?

Quem disse que os amores têm que ser difíceis?

Amor que é bom…É o amor simples.

(Caroline Soares, 2008 )

Tarde tranquila.

  

   Foi aparentemente uma tarde tranquila.Deitei escutando a agonia de Borodin no seu Noturno em ré maior para duas cordas.Aquela música pertubada e triste me pareceu tão serena.Parece uma busca incessante por paz.A mesma paz,tranquilidade dessa tarde.E essa busca toma forma nas últimas notas da música…

   O pôr-do-sol diário, meu filme favorito, escolheu minha casa para molhar seus pincéis reluzentes.Invariáveis tons de rosa, amarelo,laranja inundaram meu quarto,então minha alma aquietou-se.Um brilho de reflexão brusca, uma necessidade de filosofar, conectar-se.Entrar em comunicação profunda não só comigo, mas com Algo além.O céu,inspiração maior, me chamava, havia algo de mais naquele céu,para muitos não.Não era o céu, era uma pintura, era uma obra.Parafraseando a frase do filme Uma mente brilhante,”Ele deve ser pintor”.

   Era assim.Uma tarde tranquila, quieta, pacata, com os carros tocando sua sinfonia desordenada,assim como Borodin e minha alma.

Julgamento.

    Cansei desses dedos apontados.Desse moralismo falsificado.Dos olhares de reprovação.O que eu faço é motivo de tanta humilhação?Que crime cometi para a sociedade me banir?Porque sou uma peça sem espaço no quebra-cabeça da vida?Faço parte desse mundo.Respiro, sinto o vento, amo e odeio, sou um de vocês!

     O que vocês vêem de diferente?É meu olhar?Minha forma de falar?Meus pensamentos ameaçam suas estruturas?Não vim com o objetivo de destruir.Só quero viver, respirar,sentir o vento, amar e ser amada,ser um de vocês!

    Quero perdoar,quero limpar essa imundice que me impede de viver.Quero sentir o vento,quero perdoar,não quero conflito!Quero ser uma borboleta, quero sentir os flocos de nuvem, a brisa no rosto, quero deixar esta bagunça.Que covarde eu sou!Mas algo me chama…

Adeus!

Ícaro no sol.

Não ganhei as asas

Estou vazia.

Arrancaram a boca.

Costuraram os sonhos.

Dançaram enquanto caí.

Velejei nos pensamentos

Das ondas saí.

Encontrei meus lamentos.

Meus amores esqueci.

Um Ícaro desiludido nasci.

(Caroline Soares,2008 )