Carta ao Amor perfeito

Meia-lua, 30 horas de cá.

Caro Senhor Amor,

   Eu esperava encontra-lo na face jovial, nas liras ou nas juras.Tua irmã gêmea, rouba a tua cena e finge ser tua pessoa.Ela veste-te, ilude e entristece.Ó, mas tua irmã Paixão que me perdoe, mas quantos corações ela já não enganou?E por acaso não foi o meu, o teu ou o nosso?Quantos crepúsculos ela nos fez contemplar, quantas noites em claro ela nos fez passar?Não encontro mais o teu endereço, então coloquei na carta apenas o remetente.Fugiste do meu coração e de tantos outros com tanta pressa…Ou será que nunca lá estiveste?

     Eu te pergunto: és mesmo meu amigo?Pareces ora tão presente ora tão sumido.Não és pontual, não és leal.Pareces daquelas amizades oceânicas, que vão e vem conforme a maré, um dia serão teus fiéis parceiros, no outro, uma breve lembrança.

     Amor perfeito, sinto raiva de ti.Não me escolheste, recusaste-me friamente.Será que devo procurar-te na Humildade, ou quem sabe na Sabedoria?Devo parar de te julgar, e simplesmente me aventurar na tua busca?Seja qual for o caminho, só te peço um favor: não me deixe.

Grata pela atenção,

Artista circense.

Sangue enferrujado III

 

   O animal desengonçado seguiu a jovem a ponto de irrita-la.

- Que queres, bicho idiota?

A galinha parou, cacarejou agudamente e botou um enorme ovo dourado

     – Deus!O que é isso?Uma galinha mágica?

Mal tirou os olhos do bicho que ele desapareceu, a moça então pegou o ovo, sacudiu-o e analisou-o sem tirar qualquer conclusão.

      -Mas de onde será que isso veio?Para que serve?

 Observou,então, que havia um pó rosado ao lado do local aonde a galinha pôs o ovo.O vento bateu forte e o pó foi nos olhos delicados da jovem, ela coçou-os até verterem algumas lágrimas, que caíram no ovo.Nesse momento, ele começou a brilhar intensamente até virar um pergaminho.Lalita, curiosíssima à essa altura, pegou o papel envelhecido e leu-o:

 

“Nesses versos singelos irei trovar.

À jovem donzela das rosas

Um enigma para me encontrar

Pule o muro, enfrente as fossas

Cheire o que não tem cheiro

Fale com o mudo, evite as lojas

Evite a mentira, também o dinheiro

Assim me acharás,Menina das Rosa “

 

Ao terminar de ler, o papel desfez-se como poeira no vento.A menina ficou surpresa com o ilogismo dos fatos.Quem deixara aquilo, seria o seu amado? 

Amorzinhozinhozinhozinhinho.

 

Quero um amor brincalhão

Com gosto de chiclete

Quero um amor de sorrisos

De tolices, de gritos,liberdade!

 

Quero um amor divertido

Totalmente especulado

Espontâneo,desencanado!

 

Quero um amor detalhista

Que veja o minuto

A saudade

Um amor que participe

Sem vergonha,sem entrelinha!

 

Quero um amor de menina

Para deitar na grama e contar estrelas.

Para fingir que momentos são eternos

De juramentos,de Romeu e Julieta

De gargalhadas, de lágrimas.

 

Quero um amor vivo

Colorido, flutuante, relaxante

Compreensivo

Quero um amor amigo

De cinema, de pipoca

De sonhos,de verdade

 

Quero um amor lembrado

Sem luxo, sem vaidade

Amor suave

Amor de sorvete de creme

 

Quero amar

Sentir que não existe mais chão.

Que eu vôo num balão

Que a vida pouco importa

Sem um amor docinho

Como uma rosa torta

Recebendo o brilho do dia

 

Quem disse que os amores têm que ser azedos?

Quem disse que os amores têm que ser fedidos?

Quem disse que os amores têm que ser feridos?

Quem disse que os amores têm que ser avessos?

Quem disse que os amores têm que ser geléia?

Quem disse que os amores têm que ser de pedra?

Quem disse que os amores têm que ser idéia?

Quem disse que os amores têm que ser difíceis?

Amor que é bom…É o amor simples.

(Caroline Soares, 2008 )

Tarde tranquila.

  

   Foi aparentemente uma tarde tranquila.Deitei escutando a agonia de Borodin no seu Noturno em ré maior para duas cordas.Aquela música pertubada e triste me pareceu tão serena.Parece uma busca incessante por paz.A mesma paz,tranquilidade dessa tarde.E essa busca toma forma nas últimas notas da música…

   O pôr-do-sol diário, meu filme favorito, escolheu minha casa para molhar seus pincéis reluzentes.Invariáveis tons de rosa, amarelo,laranja inundaram meu quarto,então minha alma aquietou-se.Um brilho de reflexão brusca, uma necessidade de filosofar, conectar-se.Entrar em comunicação profunda não só comigo, mas com Algo além.O céu,inspiração maior, me chamava, havia algo de mais naquele céu,para muitos não.Não era o céu, era uma pintura, era uma obra.Parafraseando a frase do filme Uma mente brilhante,”Ele deve ser pintor”.

   Era assim.Uma tarde tranquila, quieta, pacata, com os carros tocando sua sinfonia desordenada,assim como Borodin e minha alma.

Sangue enferrujado.Parte2.

   -Precisa de ar,menina!Vive encarcerada na sua própria casa!Vá sair!-Exclamou ama.

 - E de que adianta sair de uma prisão para a outra?Lá fora encararei os densos muros do castelo.

     – E vai deixar simples tijolos empilhados destruírem tua felicidade?

     – Não é só esse muro que me tortura,querida ama.Não entendes os muros dentro da mente de meu próprio pai?Ele não vê nada além das conquistas.Para que teve essa filha então?Para vê-la costurando toda vez que retorna de um litígio sangrento?Para limpar as feridas, faze-lo esquecer dos olhares apavorados, dos gritos ensangüentados?É para isso que eu sirvo?

          -Deixe de ser ingrata.Graças a essas batalhas,tu tens o pão de hoje, teus lindos tecidos,ouro no berço,calor no inverno.Menina mal agradecida, deveria ir mais à Igreja agradecer pela tua Fortuna.

          -Será que só sabes ver felicidade no ouro?Ama tola!Nunca conheceu o amor.Agora saia daqui, sua presença está me perturbando.Eu vou sair do castelo, mas porque essa discussão me deixou tensa.

          Lalita vagou solitária por entre os jardins artificiais do feudo.Era tudo tão perfeito, e qualquer servo daria tudo para ter aquela vida rica e colorida.Mas a moça não via cor na sua solidão.O mundo lá fora parecia ser uma maravilhosa aventura que a jovem perdia a cada segundo que passava no castelo.

          A monotonia é quebrada pelos passos desastrados de Ludovico.O gordo servo chega berrando ofegante:

          -Senhorita Lalita, deixaram esta galinha aqui.É para a Senhorita!

         -Oh!Mas quem me mandaria uma galinha?Que inusitado absurdo!Deve ser de algum reino vizinho…

Lalita pôs a ave no chão e continuou o passeio.Para sua surpresa, o bicho começou a segui-la…

(Caroline Soares, 2008 )

Sangue Enferrujado.Parte 1

Ama entrou e reparou na face apática de Lalita.Ela fitava o restos carbonizados na lareira.Não demonstrava nenhuma reação aos gritos de ama.De repente, como um sopro de vida, uma voz baixinha vinda de fora, despertou a menina daquela morte espiritual:

-Menina das rosas!Meninas das Rosas…

Lalita saiu do seu estado inerte para uma euforia absurda.Correu para a janela: nada além da velha vista da torre.

-Ah-suspirou-Nada além das árvores baixas, desse verde jardim, nem uma gota de esperança.Será que estou ficando louca?Oh,destino,por que fazes isso comigo?Brincas com minha alma como uma criança travessa sacode o chocalho.Será que a vida tem que ser tão dura assim comigo?Meu sofrimento não é de fome,não é de frio.É muito pior.Vem lá de dentro,corrói meu espiríto,desmancha as esperanças.E nem o nome dele eu sei…

(Caroline,2008 )

Julgamento.

    Cansei desses dedos apontados.Desse moralismo falsificado.Dos olhares de reprovação.O que eu faço é motivo de tanta humilhação?Que crime cometi para a sociedade me banir?Porque sou uma peça sem espaço no quebra-cabeça da vida?Faço parte desse mundo.Respiro, sinto o vento, amo e odeio, sou um de vocês!

     O que vocês vêem de diferente?É meu olhar?Minha forma de falar?Meus pensamentos ameaçam suas estruturas?Não vim com o objetivo de destruir.Só quero viver, respirar,sentir o vento, amar e ser amada,ser um de vocês!

    Quero perdoar,quero limpar essa imundice que me impede de viver.Quero sentir o vento,quero perdoar,não quero conflito!Quero ser uma borboleta, quero sentir os flocos de nuvem, a brisa no rosto, quero deixar esta bagunça.Que covarde eu sou!Mas algo me chama…

Adeus!

Ícaro no sol.

Não ganhei as asas

Estou vazia.

Arrancaram a boca.

Costuraram os sonhos.

Dançaram enquanto caí.

Velejei nos pensamentos

Das ondas saí.

Encontrei meus lamentos.

Meus amores esqueci.

Um Ícaro desiludido nasci.

(Caroline Soares,2008 )

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