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Sangue enferrujado III

 

   O animal desengonçado seguiu a jovem a ponto de irrita-la.

- Que queres, bicho idiota?

A galinha parou, cacarejou agudamente e botou um enorme ovo dourado

     – Deus!O que é isso?Uma galinha mágica?

Mal tirou os olhos do bicho que ele desapareceu, a moça então pegou o ovo, sacudiu-o e analisou-o sem tirar qualquer conclusão.

      -Mas de onde será que isso veio?Para que serve?

 Observou,então, que havia um pó rosado ao lado do local aonde a galinha pôs o ovo.O vento bateu forte e o pó foi nos olhos delicados da jovem, ela coçou-os até verterem algumas lágrimas, que caíram no ovo.Nesse momento, ele começou a brilhar intensamente até virar um pergaminho.Lalita, curiosíssima à essa altura, pegou o papel envelhecido e leu-o:

 

“Nesses versos singelos irei trovar.

À jovem donzela das rosas

Um enigma para me encontrar

Pule o muro, enfrente as fossas

Cheire o que não tem cheiro

Fale com o mudo, evite as lojas

Evite a mentira, também o dinheiro

Assim me acharás,Menina das Rosa “

 

Ao terminar de ler, o papel desfez-se como poeira no vento.A menina ficou surpresa com o ilogismo dos fatos.Quem deixara aquilo, seria o seu amado? 

Sangue enferrujado.Parte2.

   -Precisa de ar,menina!Vive encarcerada na sua própria casa!Vá sair!-Exclamou ama.

 - E de que adianta sair de uma prisão para a outra?Lá fora encararei os densos muros do castelo.

     – E vai deixar simples tijolos empilhados destruírem tua felicidade?

     – Não é só esse muro que me tortura,querida ama.Não entendes os muros dentro da mente de meu próprio pai?Ele não vê nada além das conquistas.Para que teve essa filha então?Para vê-la costurando toda vez que retorna de um litígio sangrento?Para limpar as feridas, faze-lo esquecer dos olhares apavorados, dos gritos ensangüentados?É para isso que eu sirvo?

          -Deixe de ser ingrata.Graças a essas batalhas,tu tens o pão de hoje, teus lindos tecidos,ouro no berço,calor no inverno.Menina mal agradecida, deveria ir mais à Igreja agradecer pela tua Fortuna.

          -Será que só sabes ver felicidade no ouro?Ama tola!Nunca conheceu o amor.Agora saia daqui, sua presença está me perturbando.Eu vou sair do castelo, mas porque essa discussão me deixou tensa.

          Lalita vagou solitária por entre os jardins artificiais do feudo.Era tudo tão perfeito, e qualquer servo daria tudo para ter aquela vida rica e colorida.Mas a moça não via cor na sua solidão.O mundo lá fora parecia ser uma maravilhosa aventura que a jovem perdia a cada segundo que passava no castelo.

          A monotonia é quebrada pelos passos desastrados de Ludovico.O gordo servo chega berrando ofegante:

          -Senhorita Lalita, deixaram esta galinha aqui.É para a Senhorita!

         -Oh!Mas quem me mandaria uma galinha?Que inusitado absurdo!Deve ser de algum reino vizinho…

Lalita pôs a ave no chão e continuou o passeio.Para sua surpresa, o bicho começou a segui-la…

(Caroline Soares, 2008 )

Sangue Enferrujado.Parte 1

Ama entrou e reparou na face apática de Lalita.Ela fitava o restos carbonizados na lareira.Não demonstrava nenhuma reação aos gritos de ama.De repente, como um sopro de vida, uma voz baixinha vinda de fora, despertou a menina daquela morte espiritual:

-Menina das rosas!Meninas das Rosas…

Lalita saiu do seu estado inerte para uma euforia absurda.Correu para a janela: nada além da velha vista da torre.

-Ah-suspirou-Nada além das árvores baixas, desse verde jardim, nem uma gota de esperança.Será que estou ficando louca?Oh,destino,por que fazes isso comigo?Brincas com minha alma como uma criança travessa sacode o chocalho.Será que a vida tem que ser tão dura assim comigo?Meu sofrimento não é de fome,não é de frio.É muito pior.Vem lá de dentro,corrói meu espiríto,desmancha as esperanças.E nem o nome dele eu sei…

(Caroline,2008 )